quarta-feira, 14 de abril de 2021

Hosaná de Siqueira, o padre que assassinou Dom Expedito Lopes




Por : Wilson Belchior

É dificil conceber no mundo ter acontecido, o que ocorreu em Garanhuns, quando o padre Hosaná de Siqueira e Silva, (foto-31) pároco da cidade de Quipapá, paróquia da Diocese de Garanhúns-PE, assassinou D. Expedito Lopes.

Difícil mais ainda se torna, por a vítima se tratar de um piedoso Bispo, humilde, devotado à seus fiéis e a sua Igreja, para muitos um santo, como foi Dom Francisco Expedito Lopes (1914-1957).

Em todo o mundo, somente mais dois casos similares ocorrerão, um na França, em Paris, em 1857, quando o padre Louis Verge, matou a punhaladas, na igreja de Santa Madalena, o arcebispo Dom August Sibour, e o outro em Madri, Espanha, em 1886, quando o abade Galleote Costela assassinou à tiros o Bispo de Madrid, Dom Martinez Izquierdo.

O assassino que trata esse escrito, após ato infame perpetrar, foi preso, transferido para a casa de detenção de Recife. (Foto-23), e não demorou prá receber a penalidade máxima da Igreja, ao ser excomungado pelo Vaticano...

Hosaná nunca confirmou suas ligações amorosas, afirmava ser perseguição por parte do Bispado. Entretanto a Igreja Católica, sabedora da verdade, usou sua força para que ele fosse condenado com rigidez, falavam até em condenação à pena máxima.

Qual não foi a surpresa, ao ser prolatada a sentença do Primeiro Julgamento, que contrariou à todos, pois o padre foi condenado a apenas dois anos e seis meses de prisão e mais dois anos numa clínica psiquiátrica, pois prevaleceu no julgamento a tese da Legítima Defesa, que originou essa sentença estapafúrdia.

Na Casa de Detenção (foto-21) Hosaná comemorando sua pena, deu uma bizarra entrevista, entre os detentos que curtiam sua vitória, da justiça dos homens, mostrando largo sorriso, assim disse:

- Esta batina não sairá do meu corpo, por ela lutarei com todas as minhas forças. Partirei agora para conseguir minha reintegração na igreja. Não guardo rancores, não olhei para ninguém com cinismo, como declarou a acusação. Procurava ver os meus acusadores. Se ri algumas vezes deles, meu riso foi do tamanho das mentiras e das calúnias que disseram contra mim.

- Terminando a entrevista, acrescentou padre Hosaná:

- Olhando o Cristo entronizado do Palácio da Justiça, coloquei a seus pés meu coração agradecido...

- Na verdade a maior derrotada nesse julgamento, foi a Igreja Católica, que se sentiu agredida por a pena ter sido tão branda, a ponto dos próprios advogados de acusação e da promotoria recorreram da sentença, fazendo com que o julgamento fosse anulado.

O Segundo Julgamento foi conflituoso e também anulado.

No Terceiro Julgamento, ocorrido em 05/09/1963, Hosaná foi condenado a uma pena justa, pela Igreja e sociedade, excessão a alguns, que reagiram e se expressam de forma silenciosa.

Condenado a 19 anos de cadeia, cumpriu até 05/09/1968, momento em que ganhou liberdade condicional.

O epílogo dessa história foi interessante. Estando Hosaná em sua fazenda(foto-22), situada a 9km da cidade de Correntes, onde nasceu, e vivendo agora da agricultura, no dia 07/11/1997, aos 84, foi assassinado a pauladas.


Esse assassinato se transformou em mistério para a polícia. Após as primeiras investigações, foram indiciados como autores do crime, um casal de velhos agricultores, que moravam perto da fazenda do ex-padre.

Porém, desde o início das investigações, a Promotora de Correntes, Ana Jaqueline Barbosa Lopes, desconfiou de que o casal não fosse os assassinos.

O certo é que, até hoje não se sabe, quem matou o padre Hosaná...


O motivo que gerou o assassinato do Bispo, foi a desavença entre ele e o padre, decorrente de um amoroso relacionamento, entre o padre e sua prima, Maria José Martins, que morava na casa paroquial.

Todos os habitantes de Quipapá sabiam desse caso, mas, só o comentavam reservadamente, temendo retaliação do violento sacerdote.

Como se isso não bastasse, o padre deixara de cumprir suas obrigações sacerdotais, inclusive as de rezar a Santa Missa, mais preocupado com sua fazenda. Quando essa moça engravidou, o Bispo o chamou para uma audiência, e o padre negou o romance, disse-lhe que era vítima da perseguição de inimigos que queriam o retirar da paróquia.

Inflexível, o Bispo exigiu o afastamento da cidade, da moça grávida, ameaçando o padre suspender suas funções religiosas. Sem opção, Hosaná recuou e transferiu a prima para outra localidade.

Não demorou para arranjar uma substituta, na casa paroquial, sendo escolhida uma menina de nome Quitéria, jovem e mais bela que a anterior.

Dessa vez a notícia chegou rapidamente ao Bispo, que convocou o padre para uma final audiência. O Bispo disse-lhe que seu comportamento estava escandalizando a cidade e comprometendo o nome da Igreja e deu-lhe quinze dias para ele afastar da casa paroquial a nova mulher, de nome Quitéria.

O padre não obedeceu, e em 01/07/1957, dia que seria publicado o Ato Episcopal, suas ordens sacerdotais suspendendo, Hosaná armou-se com um Taurus 32 (foto-12) e no seu JEEP foi à Rádio Difusora de Garanhuns, dizendo se defender do Bispo.

Os funcionários da emissora não o acolheram em suas pretensões, e o padre enlouquecido, saiu em direção ao Palácio Episcopal, bateu violentamente na porta, que foi aberta pelo próprio Bispo (foto 11), e quando o viu, disparou nele três tiros à queima roupa, pegou o Jeep e foi se entregar aos Frades do Mosteiro de São Bento.

Dom Expedito Lopes, só resistiu até às primeiras luzes da manhã do dia 02/07/1957(foto-13).

( Obs: Dados coletados com pesquisas em livros e no Google, e a mim fornecido pelo Pe. José Gerardo Ferreira Gomes).

sexta-feira, 26 de março de 2021

Escola de Música de Sobral homenageia José Wilson Brasil

 


Discurso do Maestro José Wilson Brasil, por ocasião da comemoração dos dois 
anos da Escola de Música de Sobral, que passou a ter seu nome.

"A oficina intelectual está desprovida de fazer um discursos em uma solenidade tão grande e tão nobre como esta. Quero agradecer ao prefeito, ao povo de Sobral à imprensa e todos quanto tiveram esse gesto nobre para comigo. O que eu fiz foi muito pouco, mas foi de boa vontade, porque na Banda de Música de Sobral, em 1935, esboçou-se um movimento de esfriação, pela prefeitura, isso pelo ilustre sobralense, Vicente Antenor Ferreira Gomes, prefeito à época. O maestro José Pedro, mesmo cansado de sua luta, aceitou absorver a Euterpe Sobralense. No dia de São Pedro, 29 de junho de 1935, fez uma retreta na avenidinha chamada, naquele tempo, a Praça Monsenhor Linhares. Depois da retreta os músicos saíram tocando como que em serenata, sem a bateria, a valsa “Separação Cruel”.


"Eu tive a felicidade de acompanhar tudo isso. Não sabia eu que seria o último dia da Euterpe. Em chegando à casa do maestro, ele fez entrar os músicos, sentar, e disse a todos que daquele dia em diante estava destituída a Euterpe. Eu assisti a tudo isso. Depois veio a ideia do coronel Antenor Ferreira Gomes, da Banda de Música, que foi inaugurada no dia 26 de julho de 1936, às 9h, na Praça da Igreja da Sé, tendo como maestro Acrísio Ferreira da Silva, que na oportunidade regeu um dobrado de sua autoria. Assim ficou criada a Banda de Música da Prefeitura, da qual eu tenho a honra de ser um dos fundadores", historiou o maestro.

De acordo com a narrativa de Dom José, em seu livro A História de Sobral, a Euterpe Sobralense foi fundada pelos sobralenses: coronel Diogo Parente, José Inácio Alves Parente e Dr. Alfredo de Andrade, todos do Partido Conservador e inimigos políticos do diretor da Banda de Música da época, Zacarias Tomaz da Costa Gondim, A Euterpe, criada por volta de 1888, tendo  diretor Antonio Fortunato Mouta e dirigida por José d’Alcântara, passou ao comando do maestro José Pedro em janeiro de 1900, que de acordo com o maestro José Wilson, ficou no cargo até 1935, quando encerrou as atividades da Euterpe.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Entrevista: Daniel Kennefick: A importância de Sobral

 




Astrofísico e historiador da ciência diz que, sem a observação do fenômeno na cidade cearense, os resultados de 1919 provavelmente teriam sido inconclusivos

No início dos anos 2000, o astrofísico e historiador da ciência irlandês Daniel Kennefick, hoje na Universidade de Arkansas, juntou-se à equipe do Einstein Papers Project, uma enorme empreitada iniciada em 1986 e em andamento até hoje, coordenada por pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) que envolve a publicação comentada de milhares de escritos, científicos ou não, como cartas e outros documentos, redigidos por Albert Einstein (1879-1955). Ele entrou no projeto quando estavam editando o volume referente a 1919, ano do eclipse solar total que forneceu a primeira prova experimental de que a teoria geral da relatividade estava correta. Ao conhecer os documentos da época, percebeu que, de vez em quando, algum autor fazia uma alegação que já ouvira antes, mas à qual não dera muita atenção. O astrônomo britânico Arthur Eddington (1882-1944), que coordenou uma das duas expedições britânicas que observou o fenômeno celeste (a da ilha do Príncipe, na África), seria um grande defensor das ideias de Einstein e, por isso, teria favorecido deliberadamente a interpretação de que a luz das estrelas se curva, de acordo com os cálculos da teoria da relatividade, e não como previra a teoria da gravidade de Newton.

Kennefick se interessou por essa questão e, ao lado de seu trabalho como físico teórico da área de ondas gravitacionais, resolveu pesquisá-la a fundo. Nos últimos anos, visitou arquivos britânicos, para consultar escritos e cartas da época. O resultado desse trabalho está no livro No shadow of a doubt: The 1919 eclipse that confirmed Einstein’s theory of relativity, que será lançado em inglês pela editora da Universidade de Princeton no final de abril. Nesta entrevista, o astrofísico conta detalhes das duas expedições, refuta a tese de que Eddington favoreceu Einstein e assinala que, sem os dados de Sobral, o eclipse de 1919 não teria sido útil para confirmar as previsões da relatividade geral.

Por que a atuação de Eddington na análise dos dados do eclipse de 1919 ainda gera alguma controvérsia, sobretudo em círculos acadêmicos?

Eddington era defensor da teoria da relatividade no Reino Unido e acabou se tornando o cientista mais famoso associado à observação do eclipse de 1919. Alguns astrofísicos e historiadores dão a entender que ele teria deliberadamente favorecido as ideias de Einstein ao analisar os dados do eclipse. Felizmente, esse tipo de alegação não ganhou muito espaço entre o público não especializado. Mas no site da loja virtual Amazon é possível ler comentários de leitores leigos sobre algumas obras que reiteram esse tipo de crítica a Eddington. Além disso, de forma injusta, o papel de Frank Dyson [1868-1939], que era o astrônomo real do Reino Unido e foi o principal organizador das expedições, tem sido negligenciado. Eddington não esteve envolvido de maneira alguma com os dados de Sobral. Além de não ter estado no Brasil, e, portanto, não ter participado da produção desses registros, ele não fez a análise dos dados dessa expedição. Isso esteve a cargo de pessoas do Observatório de Greenwich, basicamente Dyson, que era o diretor, e seus subordinados.

É correto dizer que as duas expedições britânicas, a de Sobral e a da ilha do Príncipe, atuaram de forma independente, ainda que coordenada?

Sim, Dyson e Eddington se davam bem, tinham uma relação amigável. Por um tempo, antes de 1919, Dyson foi chefe de Eddington quando este trabalhou no Observatório de Greenwich. Ambos sabiam da importância do eclipse de 1919. Eles organizaram os trabalhos, mas as expedições atuaram de forma separada. Em 1919, cada um deles era diretor de um observatório inglês: Dyson, de Greenwich, e Eddington, do observatório da Universidade de Cambridge. Estavam em posições que permitiam ter expedições próprias. Dyson não viajou com sua expedição a Sobral, mandou dois assistentes. Eddington participou da expedição à ilha do Príncipe. Como seus assistentes tinham morrido na Primeira Guerra Mundial, levou também um fabricante de relógios que trabalhava nos instrumentos do laboratório.

As expedições posteriores não conseguiram melhorar de forma significativa a precisão das medidas de 1919

Por que Dyson não participou de nenhuma das expedições?

Ele nunca disse por que não participou, mas há duas explicações prováveis. A razão mais provável é que houve uma reunião muito importante no verão de 1919 que fundou a União Astronômica Internacional, que até hoje é a principal organização internacional de astrônomos. Ele participou da reunião e se tornou um dos principais líderes da área. Dyson queria estar nesse encontro. Além disso, havia pouca gente no observatório de Greenwich, em razão da guerra de 1914-1918, e ele achava que não poderia se ausentar. Provavelmente foi uma combinação dos dois motivos.

As razões alegadas para descartar os dados do telescópio maior usado em Sobral são razoáveis?

Acho que sim. Não é verdade que eles só descartaram os dados desse telescópio depois de terem obtido um resultado para a deflexão da luz que não batia com a teoria de Einstein. Consultei as anotações de Davidson, assistente de Dyson que esteve em Sobral. Elas foram feitas um ou dois dias depois do eclipse. Davidson dizia que tinham revelado as placas do telescópio maior e que elas pareciam horríveis, que não conseguiriam extrair muita informação delas. Logo de cara, eles sabiam que algo tinha dado errado nas observações com esse instrumento. Ficaram desapontados e essa situação serviu de base para a tomada de decisão, mais tarde, de descartar essas medições.

Luiz Queiroz    Vista aérea do Museu do Eclipse, em Sobral, inaugurado em maio de 1999 e fechado desde 2014Luiz Queiroz  

E os dados obtidos na ilha do Príncipe? Qual o peso deles no veredicto final?

Esses dados foram usados, mas não eram considerados bons. Nesse caso, o problema não se deveu ao mau funcionamento do telescópio, mas à presença de nuvens no momento do eclipse. Eles não teriam conseguido fazer nenhuma afirmação de maior impacto se contassem apenas com os dados de Príncipe. Sem Sobral, não teriam conseguido chegar a uma conclusão.

O fato de Eddington ter ido para Príncipe, e não para Sobral, pode ser interpretado como um indício de que a expedição para a África era vista como mais importante do que a de Sobral?

Os britânicos tinham medo do mau tempo. Por isso, pensaram em ir a dois lugares para minimizar esse risco. Assim aumentariam a chance de sucesso da empreitada. Acho que basicamente foi isso que os levou a escolher dois lugares. Eles provavelmente viriam para o Brasil de qualquer jeito. Eles tiveram problemas em encontrar um lugar para observar o eclipse na África. A maior parte do continente em que o eclipse seria visível estava na floresta do Congo, inacessível para eles. Em 1912, Eddington tinha observado um eclipse no Brasil. Sobral era um dos poucos lugares na rota visível do eclipse que tinha clima relativamente seco – e isso aumentava a chance de experimentarem bom tempo lá.

Por que os dados do eclipse de 1919 demoraram anos para ser totalmente aceitos pelos cientistas?

Não diria que outros cientistas, sobretudo os astrônomos, não acreditassem nos dados, penso que eles achavam que as medições tinham de ser confirmadas por outros registros. É um comportamento típico da ciência, que não deve simplesmente aceitar a palavra de alguém sobre algo. Em circunstâncias normais, os cientistas tentam reproduzir imediatamente um resultado que seja muito importante. Mas, no caso da teoria de Einstein, era preciso esperar pela ocorrência de outro eclipse para tentar fazer isso. Essa particularidade torna essa situação especial. Foi preciso esperar anos para tentar fazer novas medições. Isso acrescentou uma certa dramaticidade à situação. Apesar de terem confirmado os dados de Dyson e Eddington, as expedições posteriores não conseguiram melhorar de forma significativa a precisão das medidas.

Einstein realmente não interferiu nas conclusões finais de Dyson e Eddington?

Ele não se comunicou com nenhum dos astrônomos ingleses, nem mesmo com Eddington, que mais tarde veio a conhecer razoavelmente bem. Pelos meios de comunicação, Einstein sabia que os britânicos tinham saído em uma expedição para tentar provar sua teoria. Einstein não era astrônomo, nunca se envolveu nesse tipo de medida. Mas ele estimulava as pessoas a tocarem esse tipo de empreendimento e até ajudou a levantar dinheiro para uma expedição alemã antes de 1919.

Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos …e Dyson: os britânicos coordenadores das expedições para a ilha do Príncipe e SobralBiblioteca do Congresso dos Estados Unidos

O que você viu de interessante nos arquivos britânicos das expedições?

Vi cartas que Eddington mandou para a casa de sua mãe, anotações das reuniões do comitê que organizou as expedições. Mas o mais importante foi ter tido acesso à análise dos dados produzida pelo time de Dyson. Eles mantiveram registros dos dados e dos seus cálculos. Assim, pude ver como eles fizeram as análises e chegaram a sua importante conclusão de rejeitar os dados do telescópio maior usado em Sobral.

Esse tipo de dado não estava disponível para a expedição de Eddington à ilha do Príncipe?

Infelizmente, por alguma razão que desconheço, nenhum dado dessa expedição sobreviveu. As placas fotográficas foram perdidas. Falei com muitos arquivistas e ninguém sabe dizer o que aconteceu. A perda deve ter ocorrido há mais de 50 anos. As placas de Sobral sobreviveram e foram usadas em uma reanálise dos dados do eclipse feita por outros pesquisadores em 1979. Mas eu nunca as vi. Falei com alguns astrônomos sobre isso. Eles dizem que, depois de 1979, as placas de Sobral teriam sido mudadas de lugar e ninguém sabia dizer onde exatamente estão. Devem estar no meio de outras placas.


Quando a Luz se Curvou

 


Observação do eclipse solar de 1919 no Brasil e na África forneceu primeira prova experimental da validade da teoria da relatividade de Albert Einstein

Nenhum eclipse solar teve tanta repercussão na história da ciência como o de 29 de maio de 1919, fotografado e analisado ao mesmo tempo por duas equipes de astrônomos britânicos. Uma delas foi enviada à cidade de Sobral, no interior do Ceará; a outra, à ilha do Príncipe, então um território português na costa da África Ocidental. O objetivo era verificar se a trajetória da luz das estrelas seria desviada ao passar por uma região com forte campo gravitacional, no caso o entorno do Sol, e de quanto seria essa mudança caso o fenômeno fosse medido. Salvo alguma surpresa, as expedições trabalhavam com três resultados possíveis: a luz não mudaria de trajetória por causa da gravidade; sua deflexão seria conforme cálculos feitos por outros físicos a partir da teoria da gravitação universal do britânico Isaac Newton (1643-1727); seu desvio seria de acordo com as previsões do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) na teoria geral da relatividade, um valor de aproximadamente o dobro obtido pelos seguidores de Newton. Seis meses mais tarde, fotos e cálculos divulgados pelos britânicos sobre o fenômeno deram razão a Einstein.

O empreendimento é considerado a primeira comprovação experimental da teoria da relatividade geral, publicada quatro anos antes por Einstein, segundo a qual matéria e energia distorceriam a malha do espaço-tempo e, consequentemente, a trajetória da luz que por ela viaja. Ao dar suporte às ideias de espaço-tempo curvo de Einstein, os resultados das observações do eclipse mudaram a concepção que se tinha sobre o Universo. Essa comprovação também ajudou a transformar o físico alemão em um dos mais respeitados e conhecidos cientistas do século XX.

Passados 100 anos do eclipse, é consenso na comunidade científica que a relatividade geral prevê de forma mais acurada a mudança de trajetória (deflexão) da luz das estrelas do que os cálculos feitos a partir da teoria da gravidade newtoniana. No entanto, durante décadas, astrofísicos, físicos e historiadores da ciência debateram se os dados obtidos nas observações de 1919 eram suficientemente robustos para endossar as ideias de Einstein, como, de fato, ocorreu. Alguns críticos argumentaram que as medições não teriam sido precisas o bastante para decidir qual das duas teorias estava certa; outros, que o astrônomo britânico Arthur Stanley Eddington (1882–1944), diretor do Observatório da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e chefe da expedição enviada para observar o eclipse na ilha do Príncipe, teria deliberadamente descartado dados favoráveis à teoria de Newton produzidos em Sobral. “Eddington era um entusiasta das ideias de Einstein e estava ansioso para fazer um gesto em direção à reconciliação entre o Reino Unido e a Alemanha após o fim da Primeira Guerra Mundial [1914-1918] por meio da verificação experimental de sua teoria”, destaca o físico Luiz Nunes de Oliveira, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). “Mas não há evidências de que houve manipulação dos dados.”

O astrofísico e historiador da ciência irlandês Daniel Kennefick, da Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos, também refuta as alegações de que Eddington teria forçado a mão em favor de Einstein. “Além de não ter estado em Sobral e, portanto, não ter participado da produção dos registros, Eddington não se envolveu na análise dos dados dessa expedição. Isso foi feito por Frank Dyson [1868-1939] e seus subordinados no Observatório de Greenwich, em Londres”, argumenta Kennefick, que está lançando um livro sobre os 100 anos do eclipse (ver entrevista).

Uma região do céu com estrelas, que os astrônomos chamam de campo estelar, muda de posição continuamente. Mas a posição relativa entre suas estrelas é sempre igual em uma escala de tempo pequena, em geral de meses. “Se tirarmos uma foto hoje e outra daqui a três meses, as estrelas de um mesmo campo se superpõem perfeitamente”, explica o astrônomo Augusto Damineli, da USP. “Mas, no caso de um eclipse solar, a luz das estrelas aparece ligeiramente deslocada em relação à foto desse mesmo campo tirada à noite sem a presença do Sol. Quanto mais perto do Sol está uma estrela, maior é o entortamento da trajetória de sua luz durante o eclipse.” Era esse efeito, então previsto, mas ainda não observado experimentalmente, que as expedições britânicas conseguiram confirmar.

No livro Opticks, cuja primeira edição é de 1704, Newton afirma que a trajetória da luz deveria ser entortada pela gravidade, mas não calculou de quanto seria esse desvio. Para ele, a gravidade seria uma força que atuaria entre a matéria de forma proporcional à massa dos corpos e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância. Nessa época, a natureza da luz era desconhecida. Duas hipóteses coexistiam: a de que ela seria constituída de corpúsculos (partículas) ou a de que seria um tipo de onda. Partindo da premissa de que a luz era corpuscular, mesmo sem conhecer a sua massa, o britânico John Michell (1724-1793) e o francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827) calcularam, de forma independente, os efeitos da gravidade sobre a luz no final do século XVIII. Ao longo do século XIX ficou estabelecido que a luz era uma onda de natureza eletromagnética. “Depois de a luz ter sido considerada um tipo de onda, passou a ser completamente incerto se ela sofreria qualquer efeito da gravidade, pois, nesse caso, ela não seria matéria”, comenta Daniel Vanzella, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. “Essa questão ficou em aberto por mais de 100 anos.”

Einstein começou a se tornar conhecido dentro da comunidade científica ao introduzir em 1905 uma visão nova em relação à noção de espaço e tempo. “Com a publicação da chamada teoria da relatividade especial, espaço e tempo deixaram de ser entendidos como absolutos”, explica o astrônomo Reinaldo Ramos de Carvalho, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP). Segundo o físico alemão, o espaço poderia se deformar, encolher e colapsar, formando buracos negros, enquanto o tempo poderia se dilatar. No entanto, essa versão incompleta de sua teoria ainda dava o mesmo resultado que a gravitação newtoniana para a questão da deflexão da luz: 0,87 segundo de arco. Somente depois de publicar a teoria da relatividade geral em 1915, Einstein deu um passo além.

Ele introduziu a ideia de que a gravidade não era uma força trocada entre a matéria, como dizia Newton, mas uma espécie de efeito colateral de uma propriedade da energia: a de deformar o espaço-tempo e tudo o que se propaga sobre ele, inclusive ondas, como a luz. “Para Newton, o espaço era plano. Para Einstein, com a relatividade geral, ele é curvo perto de corpos com grande energia ou massa”, comenta o físico George Matsas, do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (IFT-Unesp). Com o espaço-tempo curvo, o valor da deflexão da luz calculada por Einstein praticamente dobrou, atingindo 1,75 segundo de arco.

Sobral no mapa do mundo

Depois da publicação da relatividade geral, astrônomos de diferentes países engajaram-se para tentar detectar esse fenômeno por meio da observação de eclipses solares totais. Nesses casos, seria possível fotografar estrelas próximas à coroa solar e, assim, verificar se sua luz mudava de posição em razão da proximidade do grande astro. No entanto, seja por causa do mau tempo ou das dificuldades impostas pela Primeira Guerra Mundial, ninguém conseguiu obter resultados que comprovassem as ideias de Einstein até o eclipse de 1919 (ver linha do tempo).

Em meados de 1918, pesquisadores brasileiros do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, cientes da ocorrência de um eclipse no ano seguinte, verificaram que a pacata cidade de Sobral, a 200 quilômetros de Fortaleza, reunia condições geográficas bastante favoráveis para a observação do fenômeno. Com isso em mente, o astrônomo Henrique Charles Morize (1860-1930), diretor da instituição, elaborou um relatório detalhado sobre a região e o enviou a várias instituições científicas do mundo, incluindo a Real Sociedade Astronômica, de Londres.

Frank Dyson, presidente da Real Sociedade Astronômica, havia entrado em contato com as teorias de Einstein por meio de Arthur Eddington, que era secretário-geral da instituição. Eddington vinha se destacando dentro da comunidade astronômica europeia, segundo o historiador da ciência Matthew Stanley, do Departamento de História da Ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Seu trabalho em cosmologia estatística havia ajudado a estabelecer uma reputação de cientista criativo e talentoso, e seu trabalho com estruturas estelares ainda hoje é considerado fundamental para o desenvolvimento da astrofísica teórica”, escreveu Stanley em artigo publicado na revista Isis em 2003. “Tanto Eddington como Dyson sabiam que o eclipse de maio de 1919 seria especial”, comenta Oliveira. “O Sol passaria diante de um grande aglomerado de estrelas na constelação de Touro, de modo que haveria muitas luzes brilhantes para se observar.” O eclipse permitiria fotografar por alguns minutos as estrelas no fundo do céu próximas da borda do Sol, a uma distância de 150 anos-luz da Terra — cada ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros.

Acervo do Observatório Nacional  Telescópio de 13 polegadas usado pelos britânicos no Ceará para registrar o eclipse - Acervo do Observatório Nacional De Olho no Céu