domingo, 1 de maio de 2011

Teatro São João


Desde 14 de julho de 1867, pelo menos, quando foi encerrado o drama “O Triunfo da Virtude” de autoria de Manoel de Leite Machado, já existia em Sobral o Teatro Apolo situado na antiga Rua da Gangorra. Aí, o Clube Melpômene exercitava as vocações literárias da juventude sobralense daquela faustosa época. O adolescente Domingos Olímpio, nascido em 1850, era espectador assíduo das encenações no Apolo. Quando em 1870 viajou para Olinda com o fim de cursar à Academia de Direito, já levava consigo a inclinação para o teatro, obtida no torrão natal. Tanto é assim que, ainda como estudante em Olinda, escreveu o drama “A Perdição” que foi encenada pela primeira vez a 12 de setembro de 1874, pelo Recreio Familiar do Teatro São Pedro de Alcântara.
Não é de admirar que estes quatro ilustres sobralenses, residindo ao mesmo tempo na cidade natal e dotados de tanto talento, resolvessem incentivar os homens ricos da terra a organizarem uma sociedade que tomasse a peito a tarefa de construir uma obra cultural que projetasse a cidade e pudesse continuar o trabalho pioneiro do acanhado Teatro Apolo que, pelas limitações físicas de sua sede, não tinha condições de expandir. Surgiu assim a idéia da fundação da “União Sobralense”, sociedade de caráter cultural, cujos estatutos foram logo elaborados no início de 1875. De pronto foram vendidas as ações patrimoniais, e a primeira diretoria ficou assim constituída: Dr. Antonio Joaquim Rodrigues Júnior, Presidente ; Dr. João Adolfo Ribeiro da Silva, Vice-Presidente; Domingos José de Sabóia e Silva, Ernesto Deocleciano de Albuquerque e João Frederico Ferreira Pimentel, Adjuntos; Zacarias Tomás da Costa Gondim, Secretário e José Clementino do Monte, Tesoureiro.
Na primeira sessão ordinária da nova sociedade nasceu a idéia de se construir uma grande e confortável casa de espetáculo com o nome de Teatro São João, nos moldes do Teatro Santa Isabel do Recife, tão conhecido dos idealizadores do empreendimento.
Em ofício à vereação, do dia 31 de maio de 1875, a União Sobralense solicitava da Câmara Municipal a licença para a construção do prédio, na Praça Menino Deus, com planta de João José da Veiga Eraga, sendo o requerimento deferido por unanimidade.
No local escolhido haveria três casinhas de taipa, habitadas por pobres operários. Era necessário desapropriá-las. Neste sentido, a sociedade, em ofício lido na vereação de 14 de junho, pedia que a Câmara fizesse os atos legais da desapropriação à custa do cofre municipal. Os vereadores indeferiram a súplica “pela razão de que tinha aplicação mais justa a fazer da verba destinada a tal fim e de que a providência pedida podia ser praticada pela associação do teatro, vistos estas casas no terreno onde deve construir o teatro, e em tal caso o negócio torna-se quase que particular”. E o sisudo e austero Presidente da Câmara, o Coronel Joaquim Ribeiro, mandou “que assim fosse respondido o ofício”. Diante deste inesperado indeferimento, os responsáveis pela União Sobralense não tiveram outra alternativa senão adquirir os casebres por compra, para demolição.
Vencido este primeiro obstáculo, os cuidados se dirigiram para a preparação da festa do lançamento e benção da pedra fundamental que se realizou na manhã do dia 03 de novembro de 1875, Quarta-feira, em cerimônia dirigida pelo Dr. Rodrigues Júnior. O Pe. João José de Castro, coadjutor da matriz, realizou a benção litúrgica na forma do Ritual. Na ocasião, o Dr. Domingos Olímpio, em vibrante e inspirado discurso, mostrou a importância cultural do acontecimento. O Paraninfo da festa foi o ilustrado sobralense, Dr. Vicente Alves de Paula Pessoa, juiz de Direito, e os trabalhos de construção foram imediatamente iniciados sob a orientação do mestre de obras, Isidoro Gomes da Ponte.
Durante todo o ano de 1876, os serviços continuaram em ritmo acelerado, sofrendo paralisações sucessivas durante todo o ano de 1877 por motivo da terrível seca que assolou a província. Nesse ano seco de triste memória, a situação sanitária e econômica da cidade foi das mais vexatórias. Epidemias, fome, desemprego tornaram-se problemas sérios para as autoridades e para a população, conforme se pode ver lendo a imprensa local da época . O jornal “Sobralense”, cuja coleção quase completa se encontra arquivada no Centro de Pesquisas Históricas e Geográficas da UVA e foi por nós folheado, apelava insistentemente, em suas edições semanais, para os poderes públicos da Província no sentido de enviar verbas para a construção de obras que propiciassem oportunidades de emprego a milhares de retirantes que, provenientes das diversas localidades da região, perambulavam pelas ruas da cidade.
Em sua edição de 4 de março dizia o periódico : “Está muito adiantada a construção do edifício para o teatro, entretanto consta-nos que brevemente serão paralisadas as obras, por falta de dinheiro”. Apesar das dificuldades o trabalho continuou.
Chegaram verbas para a construção de uma escola pública na Praça Imperial, da Cadeia Pública onde se celebrizou a operária Luzia Homem protagonista do notável romance de Domingos Olímpio, de novo Cemitério e da reforma do teto da Matriz. A cidade vivia assim momentos de abatimento moral provocado pela seca e de agitação febril pela avultado número de operários nas várias construções.
Se as verbas do poder público aceleraram as demais construções, o teatro entregue a particulares não pôde acompanhar o mesmo ritmo. Mas, apesar das indigentes dificuldades que teve de enfrentar, foi inaugurado festivamente no dia 28 de setembro de 1880, Domingo, às 8 horas da manhã com a encenação da comédia- trama “A honra de um taverneiro”, em três atos, seguida de uma chistosa comédia, em um ato intitulada “Meia hora de Cinismo”. Dizia o anúncio publicado no “Sobralense”. “Depois que a orquestra tiver executado uma linda synphonia será representada, pela primeira vez nesta cidade, a muito aplaudida comédia-drama”.
O editor do jornal, José Ferreira Lemos, o conhecido Pintor Lemos, sobralense, autor da tela Ceia Larga que se encontra na capela do Santíssimo Sacramento da Catedral, fazia a seguinte advertência: “Reiterando o apelo que dirigimos à generosidade do povo sobralense, no sentido de concorrer ao espetáculo com que uma plêiade de jovens hoje vai estrear na cena dramática, nós recomendamos à autoridade dos dignos pais da família o cuidado de proibir dentro do recinto do teatro o uso do fumo e daquela algazarra infernal que tão tristemente recorda a platéia do antigo teatro. A ordem e a decência que um auditório civilizado deve guardar nos espetáculos públicos são os motivos que determinam a nossa respeitosa recomendação”.
A peça foi encenada sob autorização do Delegado de Polícia Francisco Luís Vasconcelos e a “União Sobralense” pagou 85 mil réis de imposto pela abertura do teatro. Entre os atores, todos Sobralense, destacamos Antônio Montalverne, Domingos Bessa, Miguel Cialdini, Raimundo Braulino, Raimundo Arruda Diomedes, José Vicente Franca Cavalcante, pintor Lemos, entre outros. Os ingressos foram cobrados a dois mil réis em poltrona numerada e um mil réis nas gerais. A renda foi em favor das obras da Matriz.
Aí está, em dados sucintos, a história do nascimento do Teatro São João de Sobral, empreendimento gigantesco da sociedade sobralense que tantas vocações literárias despertou e tanta alegria proporcionou à população da cidade. Orgulho de cada um nós e expressão vigorosa do valor de nossos antepassados.

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